
ERA UMA VEZ
Era uma vez três irmãs. A mais velha nasceu em um dia ensolarado, a do meio, em um dia nublado de chuva e a mais nova nasceu, quando nasceu, era noite. Cada uma nasceu com um ano de diferença entre a outra. Mentira, elas nasceram com a diferença de um ano e um dia, uma da outra, exatamente. Quando a primeira nasceu, foi realizada uma festa. Quando a segunda nasceu, um chá foi preparado. Quando a terceira nasceu o pai estava viajando a negócios e a mãe ficou na casa da cunhada. A primeira irmã tinha os cabelos clarinhos quando nasceu, a segunda tinha cabelos negros e a terceira mal tinha cabelo. De toda forma, quando elas cresceram, as cores de seus cabelos mudaram. Todas três eram lindas. Era o que todos diziam, mesmo elas sendo idênticas a qualquer outro bebê. A mãe adorava contar histórias para cada uma de suas filhas. Histórias de livros coloridos e com finais felizes. As irmãs obviamente não entendiam nada, mas eram embaladas no sono pelo ritmo da voz da mãe. Quando a terceira nasceu, de todos os livros, não havia um que não estivesse com uma pagina ou outra amassada, rasgada ou manchada de alguma coisa amarelada. E elas viviam com a mãe e o pai em uma casa grande e velha, que fazia barulhos estranhos e um jardim enorme, com muita grama, um monte de árvores, uma cerca e uns piu-pius amarelinhos que seguiam sua mãe có-có marronzinha e que faziam um monte de cocô branquinho e buraquinhos no chão.
A HEROINA, A VILÃ E A GALINHA
- Có… có… co…
- Você nunca vai vencer. Seu reino de malvadez acaba hoje!
- Não há nada que pode fazer para me impedir. Serei a vencedora. E levarei comigo essa galinha! Hahahahahahaha!
- Có?
TAC… TAC… TAC… TAC… TAC… fazem o bater das espadas. As duas guerreiras e a galinha correm por entre as árvores do quintal, que afinal não eram tantas assim como pareciam ser cinco anos atrás.
- Desista heroína, suas capacidades não se comparam às minhas.
TAC… TAC… TAC… TAC… TAC… sobre a colinamorrodeterra.
- Nunca! Eu hei de ganhar. O mal sempre perde na frente do poder do bem! Se renda e eu serei boazinha e mizoquediroza!
- Có? Có… cóóóó… có…
- Hahahahahahaha! Não sabe nem falar! Heroína burra! Há há!
TAC… TAC… TAC …
- Hahaha có! Có! Có! Có!
TAC… TAC… TAC… E uma coluna de fumaçaterra encobre as guerreiras e a galinha. Terra e pedacinhodeplantaquegrudanaroupa. TAC… TAC… TAC…
- Galinha idiota! Não ria da herói que tá tentando te salvar da panela!
- Cóóóó… có… có… có…
- Há… há… há… Até a galinha burra riu da heroína burra!
- Hahahaha… eeeeeeeeiiiiiiiii! Có! Có! Có! Có! – cacarejava ferozmente a galinha.
- Isso acaba agora sua vilã de conto de fadas. Só pode haver uma, esse terreiro é pequeno demais pra nós duas.
TAC… TAC… TAC… TAC…
- Meninas, vão tomar banho que o jantar está quase pronto.
- A última a chegar come minhocas!
- Feito!
- Có!?
FESTA
- Meninas, vocês estão lindas – disse a tia que sempre dizia que elas estavam lindas.
Cada uma observava ao redor as diferentes pessoas na festa. Pessoas desconhecidas, umas bonitas, outras feias, a maioria velhas. Um senhor com um copo na mão ria tanto que parecia que ia explodir de alguma coisa que só ele achava graça. Uma senhora gorda cantava uma musica antiga ao lado de um piano, rodeada de pessoas que a elogiavam. Um bando de garotos comiam vorazmente tudo que encontravam e cuspiam caroços e o que mais não gostavam em vasos de plantas. Na verdade nem todas três observavam ao redor. A mais nova olhava para o seu vestido de terceira geração e refletia consternada e duvidosa se estaria realmente linda.
Um garoto flerta, dois garotos flertam. Eles olhavam para a irmã mais velha. A irmã mais nova cantava com a senhora gorda e sentia uma onda de orgulho e rubor quando todos aplaudiam. A irmã do meio estava com ciúme. Por que os dois garotos estavam olhando para irmã mais velha e nenhum estava olhando para ela? Seria porque ela ainda era mais nova e magricela? Mais nova ela sempre seria, se pensando bem sobre o assunto. E lá vai ela, pegar um suco pra beber, curiosamente no momento em que os dois garotos estão lá. Uma ajeitada do cabelo, uma realmente insincera-surpresa-sincera abordagem? Ola quem e você, você não acha essas festas chatas com todas essas pessoas velhasbêbadas fazendo as mesmas coisas do ano passado? Um jardim bonito realmente tem essa velha e rica casa, com iluminação, arbustosanimais e bancos.
- Queridinha vem, vem cá – diz uma tiameiobêbada para a irmã do meio abraçando-a como se fosse um cachorrinho e a sacudindo proporcionalmente – Cadê sua irmã?
- Ah, está por ai, não sei onde não (deve estar beijando todo mundo lá no jardim, sirigaita).
- Que pena, ainda não vi ela, pelo que me disseram ela está enorme, não está? Mas e você, a ultima vez que nos vimos você era desse tamanico – disse a tia que não parava de falar e que por minutos e minutos e minutos a irmã do meio deixou de compreender, ficando com sono e concordando com a cabeça o tempo todo. Enquanto no jardim, a luz da lua e com um gansoarbusto como testemunha, uma proposta saudável e secular era feita:
- Sim, mas você deverá escolher um, não dá para ficar com os dois. Ou eu, ou ele.
BRIGA
- A culpa é sua! – diz a irmã mais velha.
- Não é não, só você é culpada por fazer as coisas todas erradas. – responde a irmã do meio.
- Parem com isso, não vão brigar, mamãe não vai gostar. – diz a irmã mais nova.
- Calaboca! Meu vestido favorito todo estragado. – e pra irmã do meio – Só por que você é uma idiota e não sabe lavar.
- Não era minha vez de lavar também. Você nunca deixa que eu lave suas roupas favoritas.
As duas rodeiam raivosamente uma mesinha de centro – de mogno lustrado – humilde e assustada. A irmã mais velha carrega consigo o vestido estragado.
- Nós cominamos, você prometeu. Como eu devo ir agora na festa de amanhã a noite?
- Ora, usa um outro vestido, você tem um monte.
- Parem com isso – diz a irmã mais nova, um pouco assustada.
- Outro como esse não – grita a irmã mais velha – isso é inveja por eu ir e você não porque não tem um namorado para levá-la. Esse é o vestido favorito dele também.
- Ele só olha pro seu decote, se perguntar por telefone não sabe dizer nem a cor dele.
- Ora – ainda gritando – não fala assim dele não!
- Se você dormisse menos tinha tempo de lavar você mesma e não tinha nada estragado – diz aumentando impacientemente a voz.
- Parem, por favor – choraminga a irmã mais nova.
- Para de chorar, vê se cresce – grita a irmã mais velha pra mais nova.
- Não fala assim com ela não, só por que você está de piti – responde a irmã do meio também gritando.
Então ao escutar o som da porta de entrada se abrindo e a voz da mãe chegando elas se calam e se separam. Fica na sala, tão amuada quanto a mesinha de centro – de mogno lustrado e de extremidades arredondadas -, a irmã mais nova que não sabendo o que fazer, adormece no sofá.
RECONCIALIAÇÂO
- Sai daí, vai, e vem dormir no quarto com a gente, está frio ai. Você vai ficar gripada – diz a irmã mais velha.
- Isso, vem. A gente não está brigando mais não. Juro. Vem pra cama. – diz a irmã do meio.
ZELAYA PEDE ASILO POLITICO AO GOVERNO BRASILEIRO
Zelaya pede asilo político ao governo brasileiro caudsandopolêmica e controvérsia entre os partidos. Assim começa a matéria de capa do jornal que meio amassado se encontrava no chão do quarto perto da cama. Ao lado do jornal estvam, não exatamente amassados, mas amarrotados como quando se deixa cair uma peça de roupa sem cuidado, mas sem o maltrato que caracteriza o amassado, outras várias peças de roupa. Estavam lá uma jaqueta jeans, uma camiseta marrom, uma blusa branca, uma bermuda azul escura repleta de bolsos, uma saia branca florida, uma cueca azul e uma calcinha branca.
Sobre a cama, sentada nua e um pouco envergonhada estava a irmã do meio, respirando lenta e intensamente, enquanto seu namorado a observava, de pé em frente a cama, também nu. Ele a observa atentamente, pouco a pouco, de cima a baixo e ela o observa a observando. Os pais dela saíram para o fim de semana, a irmã mais velha estava na casa da sogra e a irmã mais nova não iria contar nada pra ninguém. Todo o tempo do mundo a disposição. Até que então ele decide se sentar ao lado dela e, excitado, tocar o seu corpo. Dessincronizadamente toca seus seios e coxas enquanto beija-lhe o pescoço. Aos poucos a estimula tocá-lo. Ele a alisa… alisa… alisa… alisa… Ela o toca, toca, toca, toca, toca, toca, toca, fazendo o coração dele acelerar. Ele a beija, beija, beija, beija, o pescoço, os seios, a barriga, a fazendo prender a respiração.
A FRESTA
A segunda irmã mais velha lhe explicou que não deveria estar por perto durante a tarde e o porque. Ir pra casa de alguma amiga ou quem sabe ir com os amiguinhos para o circo que está há algumas quadras de sua casa, próxima a estação do metrô. E era exatamente por isso que ela havia chegado um pouco mais cedo em casa e se escondido dentro do grande e antigo guarda roupa que certa vez fora da vovó. Uma construção do século anterior, de madeira maciça e escura com temas florestais gravados em auto-relevos. Quando mais novas as três cabiam comodamente ali dentro. Hoje, só a irmã mais nova se diverte entrando.
Ela chegou a dormir entre roupas de cama, cobertores e roupas utilizadas uma só vez, não sujas o bastante para ser necessário lavar. Acordou com o ranger das molas da cama. Quase se espreguiçou rápido demais, o que a faria bater nas paredes internas do guarda roupa e se denunciar. Ela ficou quietinha, controlando sua respiração e observando pela fresta estrategicamente preparada mais cedo.
Ela ficou observando, a partir de um ponto de vista privilegiado, enquanto a irmã e o namorado se despiam. Então era assim… E por um tempo nem piscou com medo de perder algo. Mas nada aconteceu alem de seus olhos arderem e então quando ela piscou os olhos, nada ainda aconteceu. Um parado de frente para o outro observando o corpo do outro. Até que então o namorado vai até a cama e os dois começam a se bulinar e beijar. Quando isso acontece fica difícil pra irmã mais nova controlar a respiração e teme ser descoberta, mas ela não precisava se preocupar com isso.
DESPERTAR
- Sai daí vai? Achou que eu não ia notar?
A irmã mais nova acorda lentamente e preguiçosamente com a voz da sua irmã. Qual irmã mesmo? TOC TOC TOC TOC Bate a irmã do lado de fora do antigo guarda roupa. Ah… essa irmã.
-Já estou indo – bocejo – não precisa gritar.
- Como descobriu? – pergunta a irmã mais nova amassada no fundo do guarda roupa quando abre as portas duplas.
- Achou que eu não ia reconhecer o truque? Não tem vergonha não?
- Um pouco.
- Só um pouco?
TRÊS DE TRÊS
Era uma vez três namorados. O da irmã mais velha, noivo para ser mais preciso, um rapaz de boa aparência – não exageradamente boa – razoável e manso. Para ele prazer são coisas simples, como se divertir com os amigos em uma partida de futebol ou ir ao cinema com sua noiva e sexo. Seus sonhos são o de se tornar rico com seu próprio esforço – de preferência não um esforço muito grande – e viver sossegadamente entre seus jogos de futebol com os amigos, ele que é lateral direita, e sua então esposa. O ultimo livro que leu estava na lista dos mais vendidos do jornal, era um policial bacana com mistério e o bandido se ferrando no final. Sua ultima aventura amorosa, antes do namoro, foi com a prima três anos mais velhas em um acampamento.
O namorado da irmã do meio é do tipo aéreo. Adorou “Eram os deuses astronautas”, lê filósofos sem ordem cronológica alguma, primeiro Nietzsche, depois Platão, depois Protágoras, depois Sartre e Schopenhauer e por ai vai. Nunca tem dinheiro. Fuma escondido da família, muitas vezes com a companhia da irmã do meio. Fuma escondido da família, às vezes a irmã do meio também fuma e é um barato. O sexo é transcendental nesses dias. Por, digamos, uma hora e meia. Seus amigos podem jogar vídeo game tão facilmente como discutir política, que nenhum deles entende realmente, mas tenta. Lê muito, escuta muita música e compartilha tudo.
O namorado da irmã menor adora rock. Para ele a grande época já passou e as melhores bandas e músicos já se foram ou estão nos finalmentes. Coleciona tudo em relação a musica antiga. Não, década de 80 não, antes, aliás, até o meio da década de 70 e olhe lá. Jazz, rock, soul e tantas outras coisas que não fazem parte de sua época. Corrigindo, fazem parte dele, mas não da sua sociedade. O sexo com ele é sempre improvisado, por mais que se tenha desenhado antes e tirado cópias autenticadas em cartório do documento. Nem sempre é bom. Aliás, nada nem sempre é bom, não é mesmo? Jack Kerouac, Nick Hornby, Marx, Engels, Jack Kirby, Alan Moore, Mauricio de Souza.
CLÍMAX
Clímax, ponto culminante, geralmente é caracterizado como um conflito. Nem sempre, mas geralmente o é. Em “Hamlet” o clímax acontece quando esse (Hamlet, o príncipe da Dinamarca) finalmente cumpre sua vingança contra o tio e então tira a própria vida. Em “Tomates verdes fritos” o clímax está relacionado à aceitação da personagem e sua mudança de perspectiva. Em “Star Wars” o clímax está agarrado firmemente à frase “Luke, I AM your father”.
Para a irmã mais velha o clímax poderia ter sido o orgasmo que ela teve depois da ceia de Réveillon com o noivo em sua casa de veraneio na praia. Um momento belo construído sobre champanhe, fogos de artifício, flores, salmão e mais champanhe. Além da promessa sobre o casamento. Acompanhado é claro por uma dia seguinte de ressaca bem vinda e arrumação pesada (depois das 13h).
Para a irmã do meio o clímax também poderia ser um orgasmo. Num dia de barato total num sitio de um amigo do namorado dentro de uma barraca de acampamento meio longe de todos e perto o suficiente. Porém poderia ser o final do livro que estava lendo, muito inesperado. Ou seria quando reatou com o namorado dias depois de terem terminado por uma indiscreta leitura de um diário proibido (se fosse para ler não estaria trancado a cadeado dentro de uma caixa debaixo da cama, não é?).
Para a irmã menor o clímax, embora tenha tido uma acirrada disputa por um tempo com uma viagem em para um clube aquático, certamente, sem sombra de dúvida alguma com o vídeo game que ganhou de aniversário no meio das férias. Ela e seu namorado passaram o restante do tempo livre jogando e jogando e jogando e jogando e jogando mais que seus pais gostariam, mas a juventude é assim mesmo não é? O que se pode fazer? Muitas vezes organizaram campeonatos que vararam as noites com muito refrigerante e sanduíches. Quase não teve sexo nesse meio tempo. Quase nunca tinha, difícil conseguir privacidade licitamente nessa idade.
FIM
Conseqüentemente após o clímax vem o fim. Onde resolve-se o conflito e se encerra a narrativa.